Transplante de fígado

FígadoO fígado é a maior glândula do organismo, sendo responsável por produzir substâncias que auxiliam no equilíbrio do organismo. Entre essas funções, podemos destacar:

  • Armazenamento de glicose: A glicose retirada dos alimentos é armazenada no fígado, que a libera na circulação quando alguma parte do organismo precisa de energia.
  • Secreção de bile: Depois de secretada pelo fígado, a bile é armazenada na vesícula biliar e, então, lançada no intestino. É uma substância que auxilia na digestão.
  • Desintoxicação do organismo: contribui para a eliminação de hormônios ou drogas.
  • Filtro de micro-organismo: combate bactérias e micro-organismos que geram infecções.
  • Transformação de amônia em ureia: Esse processo evita que a amônia chegue à circulação sanguínea e chegue ao cérebro.
  • Síntese de colesterol.

Existe uma série de problemas que pode acometer o fígado, sendo os mais comuns a hepatite (A, B e C), a cirrose hepática e o câncer de fígado. Pode haver indicação de transplante em pacientes cirróticos e com câncer. Para saber mais sobre as hepatites e sobre a possibilidade delas se desenvolverem para câncer ou cirrose, clique aqui.

Indicações para transplante de fígado

Os tumores hepáticos podem ser divididos em dois tipos: primário de fígado e metastático. O primário é aquele que se origina no próprio órgão, enquanto o metastático se origina em outro órgão e migra para o fígado. O tipo mais comum de tumor primário é o hepatocarcinoma.

O tratamento mais indicado para o câncer hepático é a sua remoção cirúrgica, quando possível. No entanto, muitas vezes o transplante é necessário, principalmente quando o paciente também é cirrótico. O transplante só é possível quando houver no máximo três nódulos, e nenhum deles ultrapassar 3 centímetros.

Quanto aos pacientes que têm cirrose, não são todos que têm indicação de transplante hepático. Para que um transplante seja necessário, a doença deve causar problemas como:

  • Ascite: água que se acumula no abdômen;
  • Eventual contaminação desse líquido ascítico;
  • Hemorragias digestivas pela boca;
  • Como dito anteriormente, tumores hepatocarcinoma (no máximo três nódulos não maiores do que 3 centímetros)

Se esse não for o caso do paciente, ele deve apenas ter acompanhamento médico para controle da doença.

Técnicas de transplante

Existem quatro técnicas principais de transplante de fígado: a cirurgia tradicional, a dividida, a intervivos e a com dois doadores vivos.

Cirurgia tradicional

Retira-se o fígado de um doador que teve morte encefálica, cuja família está disposta a doar o órgão. Este é conservado em soluções especiais e transportado para o local onde será realizado o transplante. A cirurgia dura cerca de 6 a 8 horas.

transplante hepatico dividido

Cirurgia dividida

O órgão também é retirado de um doador que teve morte encefálica. No entanto, esse tipo de cirurgia pode beneficiar dois receptores com um mesmo órgão. Nesse caso, normalmente os receptores são duas crianças ou uma criança e um adulto.

O transplante hepático dividido foi realizado com sucesso no Paraná pela primeira vez em 2011, no Hospital Angelina Caron em Curitiba.

Cirurgia intervivos

Nessa técnica, é retirada parte do órgão de um doador vivo, devido ao poder de regeneração do fígado. O sangue do doador deve ser compatível com o do receptor, e ambos devem ter o mesmo tipo físico.

O paciente deve receber uma quantidade de tecido equivalente a 1% entre a sua massa corporal e o tamanho do órgão. Por exemplo, uma pessoa de 70 kg deve receber ao menos 700 gramas de tecido.

Cirurgia com dois doadores vivos

Essa técnica retira parte do fígado de dois doadores vivos, as quais serão transplantadas para um único receptor. Ambos doadores devem ser compatíveis com o receptor. Dessa forma, a quantidade de tecido a ser retirado não é tão elevada quando na cirurgia com apenas um doador vivo.

O transplante com dois doadores vivos foi realizado pela primeira vez na América do Sul em Novembro de 2011, também no Hospital Angelina Caron. A cirurgia foi liderada pelo Dr. João Eduardo Nicoluzzi e pelo Dr. Mauro Roberto Monteiro.

Técnicas de transplante de fígado

Seleção de doadores

A seleção de doadores varia de acordo com a técnica utilizada. No caso da cirurgia tradicional, o doador deve ter tido morte encefálica e não apresentar doença hepática.

No transplante intervivos, doador e receptor devem ter mesmo tipo físico e tipo sanguíneo compatível. Além disso, deve ser obedecida a proporção de 1% entre a massa corporal do receptor e o tamanho do órgão.

No transplante com dois doadores vivos, o tipo físico não precisa ser similar, mas o tipo sanguíneo deve ser compatível.

Em todos os casos, o doador não deve ter mais de 50 anos.

Como funciona a fila para transplante hepático

Para entrar na fila de transplante de fígado, o paciente deve ser inscrito no cadastro técnico único. Com isso, consegue-se ter acesso ao seu status, que pode ser ativo, semi-ativo ou removido.

  • Ativo: é o paciente que está apto para o transplante, participando da seleção da lista de espera.
  • Semi-ativo: é quando o paciente não tem condições clínicas para realizar o transplante, ou quando os exames necessários para a cirurgia não foram completos. O paciente não participa da seleção, por estar temporariamente inapto. Quando se encontra nesse status por mais de 1 ano, é removido.
  • Removido: quando o paciente é removido do cadastro, pode ser reinscrito a qualquer momento.

Quanto aos critérios de prioridade para a seleção, estes são definidos pelo ministério da saúde. Anos atrás, essa seleção era feita por ordem de inscrição, mas hoje prioriza-se a situação de cada paciente. Para isso, foi desenvolvido o índice MELD (Model for End-Stage Liver Disease), que mede a gravidade de cada caso de doença hepática terminal.

Veja os exames utilizados para o cálculo do MELD:

  • Bilirrubina: mede a eficiência do fígado de excretar a bile.
  • Albumina: mede a habilidade do órgão de manter a nutrição.
  • Relação Normalizada Internacional (RNI): mede a função do fígado em relação à produção de fatores de coagulação.

A escala MELD varia de 6 (menor gravidade) a 40 pontos (maior gravidade). Além da gravidade da doença, fatores como tipo sanguíneo, peso e altura também influenciam na prioridade do paciente na fila de espera.

Cuidados após o transplante de fígado

O novo órgão é um corpo estranho para o organismo. Por isso, é natural que o sistema imunológico tente atacá-lo e eliminar a possível ameaça. Os medicamentos imunossupressores são essenciais para que não ocorra a rejeição do fígado transplantado.

Esses medicamentos causam uma baixa de imunidade do organismo, e por isso podem gerar outros problemas. A pressão arterial tende a aumentar, há a diminuição do número de plaquetas e glóbulos brancos, entre outros. A longo prazo, o aparecimento de doenças infecciosas é facilitado.

A quantidade de drogas imunossupressoras logo após o transplante é elevada. No entanto, ao longo do tempo chega-se a uma quantidade mínima de medicamentos, mas que nunca podem deixar de ser tomados.

acompanhamento médico também é de alta importância após a realização da cirurgia, principalmente durante o primeiro ano. Isso é necessário não só pelo órgão transplantado, mas também por essas complicações que podem ser geradas com os medicamentos.

transplante de fígado no brasilExpectativa de vida

Após o transplante, o paciente poderá trabalhar e fazer atividades físicas normalmente. A dieta também poderá permanecer normal, na maioria dos casos. Somente quando o paciente desenvolve pressão arterial alta devido à diminuição da imunidade, deve evitar o sal.

Sabe-se que a taxa de sobrevida após transplante de fígado é de cerca de 80% cinco anos após a cirurgia. Assim, o transplante consegue possibilitar ainda muitos anos de vida a muitos pacientes. Vale ressaltar que o transplante hepático é um dos que têm os melhores resultados atualmente.